The Morning Show
- Subversivas

- 16 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de ago. de 2020
Um retrato denuncioso das coxias da indústria do entretenimento, com saborosas doses de folhetim
Por Marina Targa

Ilustração: Apple/Ringer
Não é raro encontrarmos programas de TV que se proponham a revelar os horrores vividos nos meandros da indústria do entretenimento norte-americano. Enquanto o mundo todo não somente consome tais produções, como também segue os comportamentos e tendências ditados por elas, é bastante comum que, ao voltar a câmera para seus próprios bastidores, a indústria revele trapaças e disputas sanguinárias por poder e audiência. The Morning Show é um ótimo exemplo de seriado que segue essa temática, criando - como já aprendemos a esperar - seus próprios heróis para combater a situação.
A série da Apple TV+ começa de forma um pouco confusa, sem saber por qual caminho seguir. Ainda assim, quando estabelece um ritmo e nos mostra a profundidade dos personagens centrais, The Morning Show desliza sem mais tropeços para uma trama envolvente, gradativamente perturbadora.
Logo, conhecemos Mitch Kessler, o âncora do jornal matinal há quinze anos, adorado por toda a nação, demitido por alegação de assédio sexual. Mesmo que a história não seja nova, a sacada da produção é colocar Steve Carell nesse papel, atuando como um personagem pelo qual nos afeiçoamos e de cujo crime passamos a duvidar. Ao longo da narrativa, somos encorajados a gostar mais de Kessler do que da âncora com quem ele divide a bancada, Alex Levy (Jennifer Aniston), que é retratada como uma mulher silenciada e manipulada, que vive à sombra do colega, conivente com sua conduta. Levy se vê então na posição de fazer qualquer coisa para manter o poder dentro do jornal e assumir seu protagonismo na emissora.
O fato é que a série nos faz gostar de Mitch, principalmente quando percebemos, em uma conversa entre ele e um colega da indústria que o assusta com seus relatos predatórios, que o âncora não é, assim, tão ruim…
Imagem: Giphy
Vale lembrar que o criador de The Morning Show, Jay Carson, chegou ao showbizz como consultor de House of Cards. Isso significa que Carson viveu de perto a trama que concebeu ao trabalhar com Kevin Spacey, denunciado por assédio sexual por diversos membros da série. Sua conduta, que surpreendeu o público, resultou finalmente na demissão do ator.
Quando isso acontece com Kessler em The Morning Show, conhecemos Reese Witherspoon no papel de Bradley Jackson, uma jornalista mais nova que recebe a impossível missão de substituir Kessler e que revela toda a podridão das coxias, insurgindo-se até mesmo contra o dono da emissora. Com respostas ácidas e uma postura destemida, Jackson deixa logo claro que veio para ser a heroína da trama, restabelecendo a justiça e trazendo Levy para o ‘lado bom da força’ (ou da opinião dos telespectadores, pelo menos).
O choque surge quando, ao final da temporada, a série revela as ações pelas quais Kessler foi demitido. É aí que The Morning Show deixa sua marca: retratando de forma sinuosa a “cultura do silêncio” e o modo como a sociedade tende a ser conivente e, muitas vezes, a desculpar os homens acusados de assédio. É a velha história com os mesmos argumentos de sempre - minimizar as ações e duvidar dos motivos das vítimas, deslegitimando seus relatos -, o padrão encontrado na sociedade que, sem perceber, reproduzimos no dia a dia.
É assim que o seriado se revela nas cenas incômodas em que nos empatizamos com o predador. Sendo tal reviravolta proposital ou então fruto da troca dos roteiristas durante a criação da série, o que fica da temporada é uma reflexão sobre as armadilhas sociais no que diz respeito a situações de abuso. Com cenas memoráveis e falas sensacionais, as personagens de Witherspoon e Aniston lavam nossa alma enquanto vão reparando os problemas da emissora. Ainda que esse aspecto confira à trama um retrato muito romantizado, pouco verossímil, é delicioso de assistir.
Imagem: Giphy
PS: Ao que tudo indica, a segunda temporada está sendo reescrita para se passar no contexto da pandemia, o que ainda não tivemos a chance de assistir em nenhum seriado.




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