Que coisa mais linda o privilégio da raça
- Subversivas

- 16 de ago. de 2020
- 2 min de leitura
Atualizado: 28 de ago. de 2020
Produção brasileira da Netflix entrega feminismo midiático e pouco representativo
Por Marina Targa
Nota: a resenha foi escrita antes do lançamento da segunda temporada.
O lançamento da série Coisa mais linda, produção da Netflix que se passa no Rio de Janeiro de 1959 com o início da Bossa Nova, foi precedido por uma campanha de marketing feminista e inovadora. Coisa mais linda realiza a tarefa de focar no protagonismo feminino. As cenas têm estética iluminada e colorida, e são acompanhadas por uma trilha descompromissada, que exalta o cotidiano carioca.
Mas a série entrega menos do que o prometido: um feminismo midiático e superficial, quase nada representativo. Apesar da proposta de diversidade, a narrativa trabalha com personagens pouquíssimo diversos. Sem a desconstrução de padrões estéticos e heteronormativos, o seriado não dá conta de recortes de classe e raça, dependendo de protagonistas ricos, magros e brancos, à exceção de uma personagem negra e seu par – os únicos também que vivem em uma colorida e alegre favela.
Rodeada de amigas brancas vitimadas por seus companheiros, à Adélia, a única negra, são reservadas atitudes adúlteras e mentiras; as quais o roteiro tem pouca preocupação em justificar ou redimir perante a audiência.

Foto: Reprodução
Salvo um diálogo sobre o privilégio e algumas cutucadas quando as demais protagonistas assumem que Adélia é empregada da amiga, pouco se discute a branquitude e o racismo. Por outro lado, muito mais tempo em tela é dedicado a interesses mais supérfluos, como os esforços de Maria Luiza, a protagonista, em ganhar os afetos de um galã despreocupado.
Coisa mais linda propõe discussões urgentes e acerta por seu enredo focado nas mulheres, secundarizando os personagens masculinos. A trama explora problemas complexos como privilégio branco, estupro, violência doméstica e aborto, mas os trata de forma romantizada e superficial. Dar espaço ao protagonismo feminino é uma conquista, mas urge a reflexão: quão impactante é uma narrativa que reflete privilégios sem se aprofundar e exalta mulheres privilegiadas quase empoderadas?




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