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Mulheres por Agnès

  • Foto do escritor: Subversivas
    Subversivas
  • 15 de ago. de 2020
  • 2 min de leitura

Atualizado: 28 de ago. de 2020

Por Marina Targa


Em 2019, nos regalamos com Varda por Agnès, obra de despedida de Agnès Varda. Lançado quase dois meses após sua morte, o filme conduz o público por uma verdadeira aula de organicidade. E ainda que esse longa-metragem não traga discussões explícitas do feminino, assistir a Agnès é assistir a uma mulher de vanguarda, cujo cinema experimental trilhou caminhos subversivos em conjuntura política de transformação social. Cineasta que se destacou em uma indústria sexista, Varda entregou ao público experiências femininas e a imagem de mulheres construída por outra mulher, sem as lentes patriarcais que estamos acostumadas a encontrar em filmes.


Subversiva, Agnès nos presenteia com a obra revolucionária Uma canta, a outra não, de 1977, ano de ditaduras e crises políticas. Ainda que em uma década de movimentos sociais, a honestidade da película ao retratar a sexualidade e a vivência das personagens femininas transborda militância e sensibilidade. Ah, que êxtase é nos enxergarmos através do olhar de Agnès Varda!


No último longa da cineasta, nos encontramos em uma espécie de viagem onírica. Agnès - às vezes professora, às vezes personagem, e a todo momento interpretando o papel de si mesma - norteia a narrativa por uma profusão de cores arrebatadoras e sentimentos múltiplos, entremeada de momentos incolores e silentes. Aos que já cruzaram com o caminho da morte, a artista belga reserva latente gentileza: a de aliviar o peso que essa experiência coloca em nossos ombros. Seu diálogo delicado com a verdade dos ciclos de vida-morte-vida oscila, como o próprio processo de luto.


Na trajetória, acompanhamos desde a saudade de uma viúva que ainda come feijões que o finado marido comprou no mercado, até o viçoso e florido túmulo de Zgougou, a gata, que encanta adultos e crianças.


Tratando com leveza a efemeridade de obras, pessoas e sensações, a diretora disseca junto ao público o tabu da finitude, com resultado arrebatador.


Esvaecendo em lufadas de areia, Agnès se despede e nos oferece sua subjetividade rarefeita, apresentando uma efemeridade que sentimos mais em gozo do que, como é esperado quando pensamos na morte, em dor.


Foto da capa: Reprodução


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