top of page

Era uma vez...

  • Foto do escritor: Subversivas
    Subversivas
  • 16 de ago. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 30 de ago. de 2020

Contadoras, as mulheres cujas histórias vão muito além do felizes-para-sempre


Por Marina Targa


Foto: Reprodução


Esta é a história de mulheres que encontraram uma nova forma de entrar em contato consigo mesmas e com as outras. Moldadas por uma sociedade patriarcal, em certo momento escutaram ou leram alguma fábula que fez algo despertar dentro delas. A partir dessa centelha de qualquer coisa primitiva ou reprimida, começaram a estudar e devorar conteúdo que alimentasse esse fogo, para partilhá-lo com outras mulheres.


As contadoras de histórias, em sua maioria, começam assim: são tocadas por uma grande história, que as motiva a fazer o mesmo por outras pessoas. Há as que contam para crianças, as que focam em adultos e, apesar do olhar especial para a consciência e vivência feminina, muitas também trabalham com homens. Em todos os casos, o processo é baseado em estudos extensos sobre folclore e até a mente humana.


As histórias são bálsamos medicinais”, escrevia Clarissa Pinkola Estés em 1992. “A cura para qualquer dano ou para resgatar algum impulso psíquico perdido está nas histórias." Precursora dos estudos sobre o poder das histórias para o autoconhecimento feminino, a psicanalista tem um trabalho extenso sobre fábulas e mulheres. Em sua obra de mais de 500 páginas, "Mulheres que Correm com os Lobos", Estés conduz o leitor por uma jornada entre contos e simbolismos. Bíblia do empoderamento e do despertar feminino esmagado pela sociedade patriarcal, ainda hoje a obra arrebata leitoras ao redor do mundo.


Centrado na psique feminina, o livro é repleto de histórias libertadoras e se baseia em conteúdos universais, os arquétipos. O conceito de arquétipo foi introduzido em 1919 pelo psicanalista Carl Gustav Jung, que os descreve como aqueles materiais que residem no inconsciente coletivo da humanidade. Segundo ele, os arquétipos representam as emoções humanas que se transformam em experiências somatizadas de geração em geração.


Para Marianna Portela, contadora de histórias que percorre a estrada do autoconhecimento feminino há mais de dez anos, a interpretação arquetípica das histórias é também onírica: é por isso que as fábulas às vezes parecem sonhos, sem pé nem cabeça. “No conto de fadas, assim como no sonho, a gente não fala do outro. Os personagens são aspectos da alma humana, ou seja, são imortais”, afirma . Desse modo as histórias pouco a pouco transformam o inconsciente.


Em seu livro de 1992, Estés se declara uma escavadora dos contos. Diz que as histórias como as conhecemos passaram por um processo de higienização, no qual tudo o que era pagão, feminino e "não civilizado" foi expurgado ou imbuído de significado negativo. "Os contos foram tomando uma forma moralista", declara Portela, destacando que as versões originais tratavam do lado selvagem e arquetípico do ser humano. O poder curativo está também no resgate e na ressignificação desses elementos.


“As histórias são remédios para a alma que nos despertam a consciência”, diz Tamaris Fontanella, psicoterapeuta e pedagoga, fundadora do Instituto Despertar Feminino. Para ela, mergulhar nos contos é um reencontro da mulher consigo mesma. As histórias reverberam, e mulheres se reconhecem nelas por suas experiências comuns. O conteúdo é inerente à mulher no contexto social.


Para alguns, isso tudo pode soar como um verdadeiro conto da carochinha. Mas é inegável que, para muitas mulheres, essas histórias têm poder transformador. Portela explica que a forma de abordar as fábulas é que dita quais aspectos e questões da mente serão tocados. No período em que realizou encontros na ONG Casa de Lua, que encerrou suas atividades em 2016, ela conta que presenciou mudanças significativas nas mulheres que participavam de seus círculos. “As histórias da tradição oral contêm uma sabedoria profunda e milenar na qual encontramos respostas para perguntas da alma.”


Seu projeto, Histórias Curativas, reúne um extenso repertório adquirido ao longo da vida. Nos encontros, ela conta as histórias, e o processo se desenrola na elaboração das imagens que são percebidas pelo público feminino durante a narração, que variam individualmente, mas que guardam também muitos pontos comuns, dada a situação básica: a experiência de ser mulher. Ela vai discorrendo sobre os símbolos, guiando a conversa para tratar do tema central do relato. Cada conto tem seu tema: maternidade, criatividade, dependência emocional, entre diversos assuntos complexos da vida humana. “No círculo acontecem coisas muito profundas e bonitas. Por meio dessas imagens arquetípicas dos contos de fadas, conseguimos encontrar saídas para alguns questionamentos.” Ela brinca que, na maioria das vezes, as trocas genuínas trazem mais perguntas do que respostas.


Nestes círculos, a quebra de paradigmas não vem só das fábulas, mas também da troca entre mulheres diferentes. Contar sua história aciona gatilhos e ressignifica acontecimentos, além de proporcionar que outras pessoas se identifiquem com a experiência. Por isso, é importante refletir sobre o acesso a esses espaços. Quem são as mulheres que participam desses círculos? "Contei para todo tipo de mulheres: da periferia, sobreviventes de abuso, mulheres que passaram por violências diversas e refugiadas", diz Marianna, e acrescenta que a relação com as histórias é universal e independe de idade, etnia, raça e crenças religiosas. Ainda que seja sempre necessário entendermos os recortes de raça e classe, as histórias trazem imagens da vivência comum às mulheres, imagens que ressoam na essência da socialização feminina.


Fontanella, que insiste em dizer que não é contadora de histórias, faz parte do grupo As Clarissas, que discorre sobre o conteúdo de “Mulheres que Correm com os Lobos” em seu canal no YouTube. “Queremos alcançar pessoas que não têm a oportunidade física de estar conosco, acolher quem não pode pagar por nosso trabalho”. É mais uma oportunidade de acesso que a digitalização facilita.


Quer acreditemos ou não na cura proveniente das fábulas, é verdade que uma boa história pode nos fazer sentir mais vivas. Através delas, encontramos conselhos e nos conectamos com a ancestralidade de forma lúdica e poética. Transcendendo o aqui e o agora, essas narrativas atemporais nos permitem perceber, de forma consciente ou não, padrões e comportamentos naturalizados pela sociedade, que, vez ou outra, podem ser prejudiciais.


Assim, funcionam também como avisos, um apelo para que observemos mais de perto nossa relação conosco e com o mundo. Clarissa Pinkola Estés resume: “Elas [as histórias] têm uma força! Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo — basta que prestemos atenção.” E você, está atenta?


Comentários


bottom of page