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A banalidade escancarada

  • Foto do escritor: Subversivas
    Subversivas
  • 17 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 30 de ago. de 2020

Reflexões sobre a conjuntura política inspiradas por grandes mulheres (e um homem)


Por Marina Targa


“O fascismo usa a retórica da ideologia, mas constitui de fato um fenômeno de marketing, a propaganda do poder”, escreveu Toni Morrison, em ensaio sobre o racismo e o fascismo, publicado em 1995. A escritora americana, detentora de um Prêmio Nobel de Literatura, é uma dentre tantos autores que dedicaram extensas obras para dissecar o tema. À sua maneira, Toni questiona as razões contextuais e geopolíticas do fenômeno do fascismo e sua triste replicabilidade.


Não à toa, ao comparar projetos de dominação de 1995 com os regimes totalitários como o fascismo, que eclodiu em 1922, Morrison descreve uma conjuntura que poderia passar por 2020 para um leitor desatento. Segundo ela, o racismo e o fascismo, “seu gêmeo súcubo”, não eram perigosos por trazer qualquer novidade: “Juntos, eles só são capazes de reproduzir o ambiente que sustenta sua própria saúde: medo, negação e uma atmosfera em que as vítimas perderam a vontade de lutar.”


Imagine o seguinte cenário: um regime que se baseia não em um sistema filosófico complexo, como de costume, mas no sentimento de superioridade de um grupo em relação a outro, na injustiça das condições socioeconômicas e no direito de predominância de alguns; uma luta darwiniana. A exaltação do coletivo acima do individual, deslegitimando os direitos humanos e o respeito aos procedimentos legais em função de um bem maior, acima de tudo. Tudo isto norteado pela união mistificada de um líder com o povo. O Messias que traz a mensagem de pertencimento aos insatisfeitos com a sociedade progressista, que valida o ódio para quem fere este coletivo e justifica respostas violentas. Líder este munido da comoção popular dos insatisfeitos, mas nunca de um programa formal - que, inclusive, faz questão de ridicularizar.


A que momento histórico podemos atribuir essa descrição?


De acordo com Hannah Arendt, Mussolini provavelmente foi o primeiro líder a rejeitar um programa formal na década de 1920. Alguns anos depois, Hitler, em sua primeira declaração como chanceler, zombou de quem pedia detalhes sobre seu programa. Em março de 2020, Jair Bolsonaro levou um palhaço caracterizado como presidente para oferecer bananas aos jornalistas em resposta às questões sobre o desempenho econômico do país. A propaganda do poder se alimenta da ridicularização e desumanização da oposição.


Ao escrever sobre o fascismo eterno, o alerta de Umberto Eco sobre os diferentes aspectos do regime traça grande semelhança com a última experiência eleitoral brasileira, que se perpetua no cenário continuado de polarização política. Para exemplificar, criamos um Jogo dos Sete Medos, no qual retratamos a presença dos aspectos apontados por Umberto Eco em contraste com trechos de notícias sobre acontecimentos no cenário nacional nos últimos anos.

“Tais características não podem ser reunidas em um sistema; muitas se contradizem entre si e são típicas de outras formas de despotismo ou fanatismo. Mas é suficiente que uma delas se apresente para fazer com que se forme uma nebulosa fascista”

Umberto Eco - Fascismo Eterno



Tornamos a perceber o ciclo em que a humanidade vive, trocando regimes e termos, mas mantendo o mesmo paradigma problemático. No filme alemão de 2009, Die Welle (“A Onda”), ao experimentar com seu grupo de alunos a vivência coletiva de um grupo intolerante aos não-pertencentes, Rainer, o professor, acaba conduzindo os jovens a banalizar a violência desse separatismo.


No filme, assim como nas situações noticiadas e cada vez mais frequentes, fica claro o que Hannah Arendt chamou de banalidade do mal. A violência e as atitudes abomináveis dos regimes totalitaristas não cabem aos monstros, aos psicopatas de seriados ou a criaturas essencialmente más. Essas ações são conduzidas diariamente pelo homem comum, inserido em um contexto no qual o imaginário geopolítico, a conjuntura nacional e as atitudes de poucos tornam não só banal, mas também louvável a anulação dos direitos humanos em função do direito do coletivo.


Quem serão os homens e mulheres comuns do nosso século?


Ps: A Revista Cult publicou diversos artigos muito interessantes sobre Hannah Arendt, vale a pena conferir!


Ilustração da capa por Priscila Barbosa

Notícias acessadas para construção do infográfico:


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