Ao encontro de todas nós
- Subversivas

- 28 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
Peça online inaugura uma nova linguagem e mostra que o teatro sabe resistir em tempos de crise
Por Renata Barranco
“Un pájaro de papel en el pecho disse que el tempo de los besos no ha llegado”
Vicente Aleixandre
Com a prevalência da pandemia do novo coronavírus em nosso país, o setor cultural, sobrevivendo a duras penas, continuando sendo afetado não só pelo isolamento social, mas, em órbita paralela, pelo próprio governo de Jair Bolsonaro, que reforça um desmonte das instituições culturais desde o começo de sua gestão. Em meio às incertezas, no entanto, o teatro exibe sua resistência a partir de novas interlocuções artísticas transmitidas pela plataforma de vídeos Zoom. E o espectáculo “O peso do pássaro morto”, adaptação do livro homônimo de Aline Bei, reforça exatamente essa premissa: o teatro, de fato, ainda resiste.
Encenada e idealizada pela atriz Helena Cerello, e com direção de Nelson Baskerville, a peça, exibida desde o dia 22 de agosto, transpassa a esfera do teatro usual e nos convida para uma experiência nova em frente à tela de nossos aparatos eletrônicos. E se, na atmosfera da leitura, o livro, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018, rompeu as próprias delimitações da prosa e conversou com uma linguagem mais poética e teatral, a peça, em coerência narrativa, também se aproxima desse estilo. O resultado, mais do que um experimento visual, é, como o diretor afirma, uma “manifestação”.
E a surpresa maior foi saber que, para criar toda a montagem que visualizamos em tela acrílica, Cerello e Baskerville, em uma parceria bastante coesa, combinaram cenas previamente gravadas a encenações ao vivo. Direto de um sítio em Itirapina, no interior de São Paulo, Cerello, na pele da narradora-personagem que segue, assim como na obra de Bei, em anonimato, nos conduz pela história de uma mulher que, dos 8 aos 52 anos, teve uma vida marcada por perdas. Inclusive, já me adianto aqui para dizer que, ao final do espetáculo, todos nós, espectadores, tivemos a chance de conversar com a atriz e o diretor sobre a montagem. Dentre tantas falas entusiasmadas de agradecimentos e de elogios, uma espectadora assim relatou: “em tempos de tantas perdas, precisamos falar delas”.
São essas perdas, por sinal, enlaçadas com a violência sexual, o estupro, a maternidade solo, a solidão e a morte, que nos revelam que, nesse monólogo, todas as dores ultrapassam o vídeo e se encontram dentro de cada uma de nós. Perante a plateia virtual formada por participantes sem rosto, escondidos no escuro de suas intimidades, cada silêncio se transfigurou em um sentimento coletivo e desconcertante de pertencimento. Há, então, um choque entre o público e o privado que, diferentemente do que imaginei, não nos separa. Ao contrário: nos une. E nos uniu, dentro dessa solução criativa, não só na construção de uma nova linguagem, mas na conexão daquilo que verdadeiramente nos aproxima: a necessidade de expressão.
Longe do palco costumeiro, nos descobrimos em cada pisada de Cerello pela grama do sítio que ambienta essa história. Com sua câmera nervosa (e, também, claramente poética), o contraste entre cores mais claras (o rio, as flores no cabelo da atriz, o céu de tímido azul) e mais fortes (o sol, o sangue, a terra) fez com que a estética escolhida para a peça se alongue e contorne as telas de nossos aparelhos eletrônicos em uma mistura entre o cinema e um relato de viagem registrado em versos.
Ao final, Aline Bei, autora que personificou o céu para contar a vida de sua personagem principal, entra em cena (ao som de um rock, escolha assertiva de Dan Maia, responsável pela trilha) e narra a última dor vivida por aquela mulher que, mesmo anônima, representa tantas de nós.
Aos poucos, com a conclusão do espetáculo, os espectadores desconhecidos vão despontando do escuro e deixando ressoar, em opiniões que mais se assemelham a abraços, a verdadeira identidade do teatro: o acolhimento.
Importante dizer, para finalizar essa esteira de elucubrações, que parte da arrecadação da peça será destinada à CEDECA - Casa Renascer, ONG que luta pelos direitos de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual e em situação de risco.
A temporada de “O peso do pássaro morto” segue até 27 de setembro, sendo que as apresentações ocorrem somente aos sábados e domingos, às 16h.
Os ingressos, que custam a partir de R$ 20, estão disponíveis aqui.
Ilustração da capa por Victor Grizzo




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