Mulher Esporte Clube — O podcast empoderado
- Subversivas

- 16 de ago. de 2020
- 5 min de leitura
Por Beatriz Oliveira, Caio Barboza, Marina Targa e Renata Barranco

Foto por Mar Bocatcat no Unsplash | Design por Bia Oliveira
"Eu posso te dar certeza que a minha saída foi por conta de problema pessoal e por ser mulher."
Emily Lima, atual treinadora da equipe feminina de futebol do Santos, sobre sua demissão como técnica da Seleção Brasileira de Futebol Feminino.
O Mulher Esporte Clube, o podcast empoderado, traz como tema central a presença feminina nas competições esportivas. Um espaço aberto ao diálogo, proposto para a discussão de ideias a partir de pontos de vista de esportistas e mulheres que buscam mais representatividade e protagonismo.
Em 1900, as mulheres puderam — pela primeira vez — participar das Olimpíadas e, naquele ano, 22 atletas foram inscritas, correspondendo apenas a 2,21% do total. Mais de cem anos depois, nos Jogos Olímpicos de 2016, as mulheres representaram 45% dos participantes. Mas o caminho para o protagonismo feminino no esporte ainda é longo e é esse o assunto principal deste primeiro episódio do Mulher Esporte Clube. Nele, as mulheres entraram em campo e debateram sobre seu espaço no futebol, atletismo e crossfit!
É claro que a presença de qualquer indivíduo no esporte é, além da vontade própria, determinada também pelo incentivo, seja do governo ou de patrocinadores. Encontramos aí bons indicadores sobre a situação desigual para os gêneros no âmbito esportivo. De acordo com um levantamento realizado pela agência de publicidade Africa, o investimento no esporte feminino hoje é até 90% menor quando comparado ao masculino. Elas também chegam a ganhar até 40% menos que eles, enquanto os patrocínios representam a metade e as premiações são 30% menores.
Falar de esporte no Brasil é correr o risco de cair sobre o mesmo assunto: futebol. Essa modalidade está enraizada em nossa cultura, tornando-se a opção mais praticada e acompanhada pela população. De acordo com o levantamento mais recente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre as práticas esportivas no país, em 2013, 59,8% das pessoas tiveram o futebol como primeiro esporte praticado. Em segundo e terceiro lugares apareceram voleibol e natação, com 9,7% e 4,9%, respectivamente.
O futebol realmente é o esporte mais praticado pelos brasileiros. Apesar disso, somente em 2013 foi lançado o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, que possui pouca popularidade e não era transmitido pelos principais veículos de comunicação. Não era: em 2019, o campeonato será transmitido pela primeira vez na televisão pela Globo. Mas, até então, a internet foi o canal viabilizado para que torcedores e torcedoras pudessem acompanhar as atletas em campo, já que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) havia firmado parceria com o Twitter para transmitir os jogos.
Em contrapartida, os jogos masculinos sempre foram sinônimo de audiência e disputa de direitos de transmissão entre as emissoras de TV, e continuam ganhando destaque. Em 2018, por exemplo, somente o Palmeiras, campeão brasileiro do ano, teve 16 jogos na TV Globo, principal emissora aberta do país. O time alviverde foi seguido por Fluminense, Grêmio e Cruzeiro, cada um com 14 jogos. O Corinthians, que possui a segunda maior torcida do Brasil, atrás apenas do Flamengo, figurou na quinta posição com 13 jogos.
Se é verdade que a presença feminina nos esportes tem crescido, também é fato que a resistência masculina encontrada dentro e fora dos campos é esmagadora. Conversamos sobre isso com Emily Lima, atual treinadora da equipe feminina de futebol do Santos e a primeira mulher a dirigir a Seleção Brasileira de Futebol Feminino. Ela relatou as dificuldades e o poder de superação que encontra nesse universo considerado — ainda — masculino.
“Todos os dias criam dúvidas se a gente é capaz de trabalhar no futebol. Os obstáculos fazem com que a gente cresça mais, pois para eles [homens] não tem esses obstáculos. Quanto mais obstáculos você tiver na sua vida, mais experiência e crescimento tem.”
Enquanto formadora de opinião, ela explica a necessidade de incentivar e não deixar que o preconceito tire a capacidade de protagonismo e força de vontade das atletas. “Eu tento passar para as meninas, em todas as áreas, por ser mulher, não é só no futebol, mas que elas levem isso para o lado positivo e queiram mais”, reforça Emily.
Para atletas de outras modalidades, os desafios acabam sendo ainda maiores. Sem tanta visibilidade, algumas práticas esportivas não possuem espaço de transmissão nem mesmo para os homens, que dirá para as mulheres! Sem a atenção da mídia e do público em geral, encontrar representatividade e caminhos para crescer no mundo dos esportes é ainda mais difícil. Isabella Ricci, atleta faixa preta em jiu-jitsu e treinadora de crossfit, é uma das entrevistadas do episódio e falou bastante sobre esses obstáculos.
“Sempre foi uma questão que me abalou bastante, por eu não ter próximo a mim alguém que me representasse nisso. Eu sempre tive que buscar na internet, nas notícias, meninas que faziam jiu-jitsu, pois realmente é bem escasso. Não só no jiu-jitsu, como em qualquer esporte, o número de mulheres [praticando] é sempre muito baixo.”
Além de toda a questão da representatividade feminina, há cada vez mais a busca pela superação. As atletas travam e vencem partidas dentro e fora das quadras e campos. Para as mulheres, o bom desempenho ainda é insuficiente, pois há sempre a necessidade de se mostrar capaz para ocupar uma posição de destaque dentro do esporte. Para entender melhor, batemos um papo com Ana Cláudia Lemos, velocista e atleta olímpica de atletismo, que sabe muito bem o que é ser uma mulher em evidência no mundo esportivo.
“Hoje a gente tem bastante atleta feminina, mas é diferente ainda. Eu acho que as mulheres começaram a se descobrir, começaram a encarar os preconceitos, e que mulher pode sim.”
Ela explica que o preconceito tenta deslegitimar a capacidade física e competitiva: “Você sempre deve avaliar os resultados e não o sexo [gênero]. Não interessa se você é homem, mulher, transexual, gay. Não interessa a sua raça, cor, se você é gordo ou magro. É sempre o desempenho que deve prevalecer no esporte”.
Ainda há muita desigualdade quando analisamos a presença masculina e feminina no esporte. As mulheres travam uma batalha diária para que, cada vez mais, os preconceitos e paradigmas lançados sobre elas sejam quebrados. A busca feminina por espaço e valorização não está perto de acabar, mas temos exemplos de mulheres incansáveis, determinadas a — no mínimo — empatar esse placar. Seja através de um olhar otimista, que reconhece os avanços femininos na área nos últimos anos, ou de um olhar realista, ainda focado na distância que falta percorrer, o importante é ver a atual situação pelo que é: mulheres lutando constantemente por seu espaço, da maneira que só elas sabem. Lute como uma garota!
Texto originalmente publicado aqui, em 2019.



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