Maristela dos Santos
- Subversivas

- 28 de ago. de 2020
- 8 min de leitura
Uma conversa sobre o que habita nossa psique
Nos últimos meses, em meio ao cenário pandêmico de incertezas, encontramos força na sabedoria feminina e na esfera de acolhimento que nos envolve em sororidade. Convidamos a psicóloga clínica Maristela dos Santos para um bate-papo sobre violência contra a mulher, autoritarismo e mais uma série de temas urgentes que perpassam a existência feminina.
Com especialização em teoria junguiana pelo Instituto Sedes Sapientiae e formação em terapia familiar e de casal pelos Institutos Familiae e J. L. Moreno, Maristela nos ajuda, na entrevista a seguir, a entendermos mais a respeito de nossa própria psique.
Subversivas: A psicologia feminista se concentra em estudar as estruturas sociais e de gênero. Você considera essa abordagem mais inclusiva e atual?
Maristela: Acho necessária a psicologia feminista e sua militância como agente de transformação, porque acredito numa construção de sociedade mais inclusiva, justa e humanitária. Mas, apesar de apoiar esse movimento, tenho sempre o cuidado de não tomar nenhuma posição que caminhe para a radicalidade de um pensamento fechado e unilateral, que se afirme como verdade absoluta.
S: O feminismo radical, por sua vez, fala sobre a abolição do gênero, que seria uma construção social para designar os papéis e as dinâmicas de poder na sociedade. Do ponto de vista junguiano, o gênero é uma construção?
M: Jung foi estudar antropologia, sociologia, história, religião, mitologia, astrologia, filosofia e biologia. Nessa construção de saberes, ele funda uma teoria que inclui a complexidade da alma humana. Ele constrói uma teoria que une tendências biológicas e considera a herança arquetípica e simbólica que herdamos de outras culturas e do passado ancestral. Ele admite o valor da construção do “eu” influenciado pela força coletiva encontrada no psiquismo humano e considera o “self” como a instância que promove a mediação entre o mundo inconsciente e consciente, assim como o faz entre o mundo interior e exterior. Jung propõe um trabalho terapêutico que inaugura uma postura de igualdade entre todos os símbolos numa visão sistêmica, cíclica, igualitária, simétrica e interdependente.
S: No livro “Mulheres que correm com os lobos”, a escritora Clarissa Pinkola Estés descreve a jornada da mulher selvagem. Ela é um arquétipo e faz parte da nossa psique?
M: No livro citado, está incluída a ideia de que somos seres instintivos com capacidade de sentir, responder e refletir. Possuímos o potencial inato para curar até mesmo os ferimentos traumáticos mais debilitantes. O excesso de domesticação prescrita pela cultura patriarcal fez com a que a lembrança do nosso parentesco absoluto com o selvagem e o instintivo fosse esquecida, desativada, negligenciada. No caso da natureza selvagem feminina, o símbolo que resgatamos ao nos conscientizarmos dele está associado à forma psíquica natural da mulher. Esse encontro consigo mesma e com a alma feminina recupera seu destino próprio de desenvolvimento. É o retorno à vida criativa, autônoma, consciente de si e de seus ciclos naturais e em constante mutação. A autora trata deste tema do feminino trazendo imagens de contos e histórias que retratam a psique como múltipla e arquetípica. Os Arquétipos são os signos e símbolos coletivos que já estão impressos em nossa personalidade no ato em que nascemos. Algo que jamais vivemos e vimos, mas que reconhecemos por terem sido transmitidos por nossos ancestrais.
S: A analista junguiana Jean Shinoda Bolen, em seu livro “Ártemis: a personificação arquetípica do espírito feminino independente”, defende a ideia de que Ártemis, deusa grega da caça e da lua, também reforça o arquétipo da mulher selvagem, forte, corajosa e independente. Como você acha que essa ancestralidade arquetípica pode ser explorada por todas nós atualmente? O que nos separa dela?
M: Apesar de não ter lido esse livro, conheço os símbolos ligados à deusa Ártemis, assim como identifico a diferença de funcionamento de cada deusa da mitologia grega. Ártemis representa muito bem os aspectos da natureza, ela tem a sabedoria mutante da lua e é consciente de sua essência de percepção aguçada, espírito brincalhão. É devota da coragem, resistência, força e independência. Acredito que a mulher contemporânea explora essas qualidades quando assume seu potencial criativo e o coloca como missão de vida, independentemente de estar ao lado de seu objeto de desejo amoroso. Vejo que atualmente a mulher não espera que o homem a salve de seus dilemas próprios. Ao contrário, ela se motiva a descobrir como enfrentá-los com as ferramentas que encontra dentro de si, geralmente formas únicas e particulares que devem nortear sua razão de vida e seu desenvolvimento. Estamos separadas de Ártemis quando somos dominadas pelo racional, pelo pensamento abstrato que idealiza e padroniza as formas de vida, reduzindo a psique a sistemas de valoração hierárquicos que a sociedade impõe.
S: Nós, mulheres, somos seres cíclicos, mas vivemos em uma sociedade voltada para a produtividade, a assertividade e a constância. O que podemos aprender com isso?
M: Para pertencer à esfera pública, a mulher teve que desenvolver a capacidade de ser assertiva, estável, adaptada à forma normativa e racional do funcionamento corporativo e institucional. O treino de tais habilidades trouxe para a mulher o contato com o animus inconsciente, componente masculino da personalidade feminina que, ao ser integrado e desenvolvido na consciência, promove a formação de uma pessoa mais plena, equilibrada e capaz de desenvolver afinidade, projeção, empatia e transformação. Inicialmente, ao sair da esfera privada, a jornada de trabalho fora de casa trouxe para a mulher uma ampliação de experiências, gerando uma capacidade de autorrealização inegavelmente positiva. No segundo momento, a natureza particular, inconstante e mutável, própria da essência feminina, entra em conflito com as marcas do mundo patriarcal, que é regido basicamente por princípios racionais, normativos e de funcionamento e ritmos artificiais, com convenções sociais gerais e absolutas e demandas de constância e produtividade. O confronto entre as visões de mundo femininas e masculinas trouxe para a modernidade as características de pluralidade e diversidade, formando novos padrões de atuação tanto na esfera privada como para a vida pública. Na contemporaneidade, é necessário compor elementos de receptividade e vitalidade, associar assertividade com leveza e permitir que homens e mulheres possam se identificar com posturas passivas e de fragilidade, como também vivenciar força e poder para conquistar autonomia própria e agregar diversas formas de representações sobre os sujeitos. Estamos construindo mudanças importantes na forma de se relacionar, buscando formas de contemplar, cada vez mais, as diferenças individuais, evidenciando a natureza complexa do ser humano. A sociedade atravessa um período de desafio relacional, onde será necessário aprender a respeitar as formas plurais de diferentes estilos pessoais, fazendo da vida em convivência uma constante aprendizagem sobre si mesmo, exercitando um treino diário de reflexão e que caiba, também, a prática da escuta dos temas do outro, tornando possível a igualdade de condições.
S: Movimentos ultraconservadores ligados à extrema-direita, como o bolsonarismo, legitimam a misoginia, o machismo e o ódio à diversidade. Na sua visão, como o autoritarismo vigente, que deseja o nosso silenciamento, impacta a vida de todas as mulheres e o bem-estar coletivo?
M: O bolsonarismo tem sido um desastre ao avanço do nosso desenvolvimento social e político porque representa um retrocesso no exercício do pensamento democrático, plural e a favor da diversidade. Temos que deixar de buscar figuras populistas que prometem ser salvadoras da pátria, mas que são apenas figuras vaidosas que desejam o poder e pretendem manipular o povo para conservá-las em cargos políticos para que, assim, tirem benefícios próprios nas suas funções de liderança. Acredito que nosso passado histórico e nosso sentimento coletivo de desamparo e baixa autoestima têm sido as causas inconscientes na escolha de presidentes que vendem promessas de evolução para depois negligenciar a educação, a saúde e as políticas públicas. Não é possível acreditar em líderes que se comprometem a representar o desejo e necessidade de um grupo social, mas que, na verdade, negligenciam tantos outros que não irão se sentir representados. Somos um povo com grande diversidade de condições, num contexto complexo que exige muita capacidade de administração e governança. Precisamos de um líder que possa trabalhar em equipe, que convoque os especialistas de cada área de atuação e que haja um diálogo que resulte em união e soma de competências. O preconceito e o autoritarismo ideológico têm prejudicado mulheres e também outras classes que se sentem excluídas. É necessária uma prática social que possa somar e incluir as diferentes formas de vida e legitimar as particularidades próprias a cada contexto, procurando criar a possibilidade de convivência respeitosa. Inclusive, é preciso encontrar formas mais harmônicas de relações amorosas para que, em todas as configurações possíveis de gênero, possamos criar e desenvolver trocas afetivas que atendam suas necessidades relacionais.
S: A cada hora, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, quatro meninas de até 13 anos são estupradas no Brasil. Atualmente, a repercussão a respeito do aborto legal de uma criança de 10 anos que foi estuprada por seu tio escancarou a naturalização dos crimes de violência sexual e a negligência com eles. Qual é, na sua opinião, a importância do combate à cultura do estupro e do acompanhamento psicológico às vítimas?
M: O estupro é o único crime em que a vítima é julgada junto com o agressor. Nos espaços onde a vítima deve ser ouvida e acolhida, ela só encontra julgamentos, desconfiança e descrença acerca da violência que sofreu. Dividir a parte da culpa de um crime de violência sexual com a própria vítima é atenuar a ação do agressor. Quanta falta de sensibilidade teve o grupo que fez uma manifestação pública contra o aborto na porta do hospital onde a menina de 10 anos fazia a intervenção para interromper a gravidez, algo que não é leve para a maioria das mulheres, quanto mais para uma criança com tão pouca idade e na condição de vida que ela se encontra. No momento em que ela recebe um cuidado médico e jurídico para protegê-la física e emocionalmente da violência sexual cometida pelo tio, há novamente a violência coletiva contra ela. Os serviços psicológicos contra vítimas de violência precisam ser disponíveis nas redes de saúde pública e privada para que pessoas agredidas possam ter apoio para fazer processos de reparação pós-traumática. Todo indivíduo ferido, ao nomear e compartilhar essa experiência, pode ter a chance de recuperar a mobilidade de reagir, assim como adquirir ou recuperar a experiência de funcionalidade do autocuidado.
S: A sobrecarga psicológica está afetando mais as mulheres durante essa pandemia. Além do risco da contaminação e das incertezas profissionais e econômicas, muitas estão convivendo com seus agressores dentro de casa e com vários tipos de violência psicológica. Como todas essas lesões psíquicas afetam a saúde e a vida da mulher?
M: A falta de certeza que a pandemia trouxe para toda a sociedade e o fato de termos que lidar com frustrações e experiências limitadoras levam algumas pessoas com dificuldades emocionais a descarregarem as suas angústias em pessoas mais próximas, que estão na convivência familiar. Geralmente, homens mais primitivos ou gravemente feridos, que não possuem maturidade emocional, não reconhecem o outro como legítimo outro, associam, então, a mulher com um objeto de posse e passam a depositar suas raivas e insatisfações em suas companheiras, tornando-as vítimas de agressões que, de modo algum, podem estar justificadas em nenhuma situação. Toda dinâmica opressora e agressiva causa altos níveis de estresse, resultando em adoecimento físico e emocional. A experiência relacional negativa impede as pessoas de poder construir relações de confiança com o outro, desenvolver o desejo de intimidade e pertencimento, assim como compromete a autoestima, individualidade e liberdade de expressão no mundo. Não é justo que a mulher, em pleno século XXI, continue aceitando maior jornada de trabalho e maior responsabilidade na criação dos filhos, bem como a missão de ser sempre responsabilizada em cuidar e manter o bom estado emocional do seu parceiro. Cabe à mulher e ao homem da modernidade a construção de relações mais simétricas, redistribuindo responsabilidade e somando saberes de forma igualitária e/ou complementar entre si.
Foto da capa: Divulgação



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