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Mar(i)a

  • Foto do escritor: Subversivas
    Subversivas
  • 28 de ago. de 2020
  • 2 min de leitura

Por Renata Barranco


Ela vinha de mansinho, com aquele andar de criança introvertida e assustada. Os cabelos presos em um coque bem firme, a saia escondendo os joelhos. Sua bolsa sempre à frente do torso, e o sorriso velado, quase que inexistente. Durante todos os anos em que trabalhei como mesária nas eleições, observei Maria apertar com receio os botões na urna. Com dificuldade diante de todo aquele processo, sempre solicitava a minha presença para assegurar que “tinha dado tudo certo”. Mesmo após o barulhinho do “confirma”, ela ainda permanecia ali, camuflada, com medo de que seu voto tivesse se perdido naquela máquina tão apática escoltada por um biombo de papelão.


Para minha surpresa, depois de tantos anos, em 2014, não fui chamada para ser mesária. Por um lado, me encontrei livre. Livre de ver o mesmo senhor de expressão aterrorizante bradar palavras de ordem sobre o ano de 1974. “Naquela época, não tinha essa palhaçada toda. Nós, militares, é que comandávamos e colocávamos as pessoas na linha”. Assim ele dizia, com uma felicidade tão efusiva que era praticamente impossível controlar a minha repulsa. Esse episódio, por sinal, faz parte das coisas insuportáveis que vivenciei. Respirar fundo, segurar firme na lateral da cadeira, voltar ao ofício de desenhar um “x” nas linhas que receberiam os nomes dos votantes.


Também não vi, naquele ano, o senhor de cabelos ralos sustentados por uma grossa camada de gel, nem aquele que levava seu cachorro até a urna, ou o rapaz de óculos escuros e calça jeans rasgada, muito menos a moça com bolsa de grife e sapatos de salto alto. Mas, de todas as pessoas que conheci (ainda que epidermicamente) durante as cinco eleições em que trabalhei como mesária, sinto falta dela. Senti saudades de Maria.


Durante todas as votações em que nos encontramos, ela me fitava com as sobrancelhas nervosas, impacientes. “Não sei escrever, moça”, disse-me em nosso primeiro contato. Rapidamente, sugeri para que ela segurasse a caneta e a colocasse delicadamente no papel, e a orientei pela estrada das letras que lhe era desconhecida. Primeiro, desenhou uma reta, um traço curto. Depois, a alegre bolinha da letra “a”. Mas o “i”, como Maria não gostava de tirar a caneta do papel, sempre acabava ficando de fora em sua assinatura. Maria nunca percebeu. E naquele papel que só eu olhava, ela era, secretamente, Mara.


Em todos esses anos, Maria Mara assinou, sorriu e deixou a sala em que eu estava com a sensação de dever cumprido. Em 2014, porém, não dei tchau para Mar(i)a, a senhora de mãos trêmulas e de voz sutil, como a de uma menina que brinca de conversar sozinha com sua boneca no quarto e que caminha com a mesma paciência de quem atravessa um rio cheio de pequenas pedras.


Foto da capa por Joseph Chan no Unsplash.

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