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Mãe

  • Foto do escritor: Subversivas
    Subversivas
  • 16 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 30 de ago. de 2020

Por Marina Targa


Quando tinha 13 anos, Romilda, 52 anos, trocou Ibirajá por Nanuque para trabalhar em uma casa de família. Um dia, enquanto passava roupa, estranhou quando o patrão fechou portas e janelas da casa. Quando ele se aproximou para apalpá-la, Romilda não hesitou em acertá-lo com o ferro de passar fervendo. Ela irrompe em risadas e descreve a marca da queimadura que deixou no braço do homem.


Revelou toda a verdade à esposa dele e ainda trabalhou para a família por seis meses, durante os quais a mulher a levava para todos os lugares que ia a fim de protegê-la. “Ixe, isso aí foi várias vezes”, conta. De fato, já conhecia a violência sexual desde os 11 anos, quando era acordada em sua cama de madrugada pelo empregador. O homem adentrava o quarto que ela dividia com seus filhos já nu e, sem força ou sequer idade para entender, ela só se livrou do abuso quando conseguiu ir embora da casa.


O assédio a perseguiu por muito tempo na profissão, mas afirma que se protegia. Aprendeu nova que precisaria fazer isso por si mesma. Ainda na penúltima residência em que trabalhou, além dos avanços do patrão, tinha que lidar com a patroa que lhe reservava um copo e um prato de metal para dividir com o cachorro. Era maltratada diariamente. Se defendia fazendo o que estava a seu alcance, tirando prazer de pequenas insurreições - como usar em segredo a louça que lhe era proibida - até encontrar um novo emprego.


Começou a trabalhar aos nove anos, quando foi morar na casa do dono da fazenda em que o pai trabalhava. O patrão combinou de levar a menina só para fazer companhia para a esposa, que ficava muito sozinha. Se era solidão, não transparecia, mas a mulher a acordava de madrugada para bater manteiga, porque de dia era muito quente. A menina dormia escondidinha no corredor para ouvir os passos de quem chegasse e nem sempre funcionava. “Eu acordava era mesmo no muçungão!”


Chorava de saudade do pai todas as noites e só pensava em ir para casa, riscando na parede do quarto em que dormia os dias que se passavam. Rezou pelo resgate com tanta força que ele finalmente aconteceu. O pai a levou de volta quando soube do tratamento que ela recebia. Não demorou muito para novas adversidades, foi então a vez de sua mãe ir embora. “Eu lembro como hoje, muito besta, no São Pedro a gente foi pra Lajedão e ela não quis mais voltar”. Ainda assim, não guarda mágoas, só carinho pela mulher que a criou obstinada como é. “Mãe era muito trabalhadeira, carregava água na cabeça pras pessoas”. O pai seguiu cuidando das filhas até o fim da vida, Romilda o descreve com afeto que transborda os olhos.


Além do emprego doméstico, buscou outras soluções para os obstáculos que a vida apresentava. Trabalhou colhendo e vendendo palmito em Rondônia aos finais de semana quando tinha 20 anos, depois foi para o garimpo em Colorado do Oeste. Foi conhecer Serra Pelada para buscar oportunidades diferentes, mas não chegou a trabalhar lá, porque “o povo matava gente por um nada, por um nada, creindeuspai”. Rumou então para o Acre e por lá ficou. Foram-se seis anos moendo cana e nove anos lambicando a cana pra fazer cachaça. Nessa época, o primeiro marido perdeu o antebraço no moedor em um dia em que estavam só os dois trabalhando. Sem qualquer outro meio, viajaram nove horas de táxi para chegar ao hospital.


Romilda narra essas e outras histórias reforçando que os acontecimentos já não lhe trazem dor. Considera-os memórias ruins de uma vida que deixou para trás, da qual guardou apenas a certeza de que daria oportunidades diferentes para seus filhos. Conta que hoje o filho mais novo de três é o primeiro na família a ter curso superior completo e se formou na faculdade de engenharia. Com um orgulho bonito, explica que ele passou por uma entrevista em fábrica e começa o trabalho novo ainda este mês. "A vida dele vai ser muito diferente, se Deus quiser... E há de querer!"


Quando pergunto o que achou da entrevista, diz que tem vergonha de escreverem sobre ela e que nem tem muita coisa para falar. Mas quer que o texto chame-se “Mãe”, porque é a função que mais gosta dentre as tantas que desempenhou na vida.


Foto da capa por Christian Newman no Unsplash

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